{"id":1535,"date":"2022-03-11T16:57:44","date_gmt":"2022-03-11T19:57:44","guid":{"rendered":"https:\/\/academiaalimentesuamente.com.br\/ecoscientia\/?p=1535"},"modified":"2022-06-13T18:06:49","modified_gmt":"2022-06-13T21:06:49","slug":"relacao-intestino-ansiedade","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/academiaalimentesuamente.com.br\/ecoscientia\/relacao-intestino-ansiedade\/","title":{"rendered":"Qual a rela\u00e7\u00e3o do intestino com  Ansiedade, Depress\u00e3o e Comportamento Social?"},"content":{"rendered":"<p>Quem nunca sentiu um friozinho na barriga no primeiro encontro? Todos n\u00f3s j\u00e1 vivenciamos algum sintoma gastrointestinal frente a um desafio ou nova experi\u00eancia. Mas voc\u00ea sabe por que isso acontece?&nbsp;<\/p>\n<p>Nosso c\u00e9rebro \u00e9 ligado ao intestino de v\u00e1rias formas. O eixo intestino-c\u00e9rebro \u00e9 constitu\u00eddo por rotas bidirecionais e tem uma comunica\u00e7\u00e3o mediada por v\u00e1rias vias como o sistema nervoso central atrav\u00e9s do sistema nervoso parassimp\u00e1tico (em especial, o nervo vago), o sistema neuroend\u00f3crino, o sistema imunol\u00f3gico e o sistema circulat\u00f3rio \u2013 que permite a passagem de metab\u00f3litos e neurotransmissores produzidos pelo intestino.&nbsp;<\/p>\n<p>Quando passamos por estresse emocional ou vivenciamos a ansiedade, liberamos no c\u00e9rebro um horm\u00f4nio liberador de corticotrofina que tem efeito espasm\u00f3dico no intestino e pode provocar diarreia. Al\u00e9m disso, atualmente sabe-se que o nosso intestino produz cerca de 500 milh\u00f5es de&nbsp;<a href=\"https:\/\/academiaalimentesuamente.com.br\/ecoscientia\/2022\/01\/03\/neurociencia-e-ansiedade\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><b>neurotransmissores<\/b><\/a>. E o que isso quer dizer? Que o que sentimos impacta nosso intestino e a sa\u00fade intestinal altera o funcionamento do c\u00e9rebro, \u00e9 uma via de m\u00e3o dupla.&nbsp;<\/p>\n<p>Outro fator importante para se levar em considera\u00e7\u00e3o na import\u00e2ncia do intestino na nossa sa\u00fade mental \u00e9 a rela\u00e7\u00e3o das bact\u00e9rias que habitam nosso sistema gastrointestinal.&nbsp; Ap\u00f3s o projeto genoma e o desenvolvimento de t\u00e9cnicas de sequenciamento gen\u00e9tico, tem-se maior conhecimento da popula\u00e7\u00e3o de microorganismos que habitam nosso intestino, chamada de microbiota e microbioma intestinal. Estima-se que h\u00e1 cerca de 100 trilh\u00f5es de microorganismos (bact\u00e9rias, v\u00edrus, fungos) em nosso intestino.&nbsp; Por isso alguns pesquisadores falam que somos apenas 43% humanos, pois o corpo humano tem cerca de 43 trilh\u00f5es de c\u00e9lulas humanas, isto \u00e9, temos mais c\u00e9lulas de microorganismos do que c\u00e9lulas humanas!<\/p>\n<p><b>Mas como essa popula\u00e7\u00e3o gigantesca de microorganismos, que habita nosso intestino, impacta nosso funcionamento cerebral e nosso comportamento?&nbsp;<\/b><\/p>\n<p><b><br \/>\n<\/b><\/p>\n<p>Uma pesquisa publicada em 2020, no Human Microbiome Journal, realizada pela Ph.D. Katerina Johnson, do Departamento de Psicologia Experimental da Universidade de Oxford, Reino Unido,&nbsp; examinou a conex\u00e3o entre a composi\u00e7\u00e3o das bact\u00e9rias intestinais e tra\u00e7os de personalidade, como sociabilidade e neuroticismo (5). Nesse estudo, a pesquisadora coletou amostras fecais de 655 adultos, com idade m\u00e9dia de 42 anos. A cientista utilizou a an\u00e1lise de sequenciamento gen\u00e9tico para avaliar os g\u00eaneros bacterianos espec\u00edficos. O estudo solicitou aos participantes que respondessem a um question\u00e1rio de estudo abrangente sobre comportamento, sa\u00fade, estilo de vida e fatores sociodemogr\u00e1ficos para an\u00e1lise das personalidades. Tamb\u00e9m foram realizados um conjunto de an\u00e1lises estat\u00edsticas que ajudaram a determinar a rela\u00e7\u00e3o entre a composi\u00e7\u00e3o das bact\u00e9rias intestinais e caracter\u00edsticas comportamentais, como sociabilidade e neuroticismo. Nessa pesquisa foi considerado o&nbsp;International Personality Item Pool &#8211; que consiste em an\u00e1lise de perfil de personalidades. Este modelo classifica as diferen\u00e7as de personalidade em cinco grandes grupos:<\/p>\n<p>Abertura, que os pesquisadores descreveram como \u201ccriatividade, curiosidade intelectual e vontade de buscar novas experi\u00eancias\u201d<\/p>\n<p>II)&nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; Afabilidade, definida como &#8220;confian\u00e7a e coopera\u00e7\u00e3o nas intera\u00e7\u00f5es sociais&#8221;<\/p>\n<p>III) &nbsp; &nbsp; &nbsp; Conscienciosidade, ou a &#8220;aten\u00e7\u00e3o aos detalhes e foco&#8221;<\/p>\n<p>IV)&nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp;Extrovers\u00e3o, ou a &#8220;propens\u00e3o de buscar e desfrutar da companhia de outros&#8221;<\/p>\n<p>V)&nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; Neuroticismo, ou seja, a &#8220;tend\u00eancia de sentir emo\u00e7\u00f5es negativas&#8221;<\/p>\n<p>Os resultados encontrados s\u00e3o muito interessantes! O estudo revelou que v\u00e1rios tipos de bact\u00e9rias, que os pesquisadores relacionaram ao transtorno do espectro do autismo em estudos anteriores, tamb\u00e9m tiveram associa\u00e7\u00f5es com diferen\u00e7as de sociabilidade na popula\u00e7\u00e3o em geral. Parece que o microbioma intestinal pode contribuir n\u00e3o apenas para os tra\u00e7os comportamentais extremos vistos no autismo, mas tamb\u00e9m para a varia\u00e7\u00e3o no comportamento social da popula\u00e7\u00e3o em geral. Al\u00e9m disso, o estudo descobriu que pessoas com redes sociais mais extensas eram mais propensas a ter uma composi\u00e7\u00e3o mais diversa de bact\u00e9rias intestinais. Isso sugere, escreve o autor, que ser socialmente ativo pode promover a diversidade do microbioma intestinal. Muitas pessoas acreditam que uma maior diversidade no microbioma intestinal humano promove a sa\u00fade intestinal e melhor sa\u00fade geral. A an\u00e1lise revelou tamb\u00e9m que a menor diversidade microbiana estava associada a n\u00edveis mais elevados de estresse e ansiedade.<\/p>\n<p><b>&nbsp;<\/b><\/p>\n<p><b>Seria o microbioma uma das chaves para sa\u00fade mental?<\/b><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Nas duas \u00faltimas d\u00e9cadas tem havido um crescente interesse no microbioma intestinal e a rela\u00e7\u00e3o com o c\u00e9rebro e comportamento, hoje conhecido como eixo microbioma-intestino-c\u00e9rebro. Estudos recentes mostraram que a microbiota pode influenciar o funcionamento do eixo intestino c\u00e9rebro e dessa forma alterar o funcionamento do c\u00e9rebro afetando o comportamento (1,2,12).&nbsp; V\u00e1rios transtornos de humor, como depress\u00e3o e ansiedade e transtornos do espectro autista tem rela\u00e7\u00e3o com perturba\u00e7\u00f5es gastrointestinais (3-9).&nbsp;<\/p>\n<p>Atualmente j\u00e1 se sabe que&nbsp; doen\u00e7as inflamat\u00f3rias do intestino, envolvem frequentemente problemas psicol\u00f3gicos relacionados \u00e0 altera\u00e7\u00e3o da microbiota intestinal. Pesquisas mostraram que a microbiota intestinal de pacientes com s\u00edndrome do intestino irrit\u00e1vel transplantados em ratos mudou a fun\u00e7\u00e3o intestinal e comportamento dos animais (8).&nbsp; Sabe-se tamb\u00e9m que pessoas com transtornos de humor, como depress\u00e3o, apresentam microbiota intestinal diferente de pessoas saud\u00e1veis (4,5,12).&nbsp; &nbsp;&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><b>Ent\u00e3o ser\u00e1 que a ingest\u00e3o de microorganimos poderia melhorar quadros de depress\u00e3o e ansiedade?&nbsp;<\/b><\/p>\n<p>Um estudo, realizado no Ir\u00e3, em 2019, com 110 pacientes adultos com depress\u00e3o que receberam probi\u00f3ticos (Lactobacillus helveticus e Bifidobacterium longum) e prebi\u00f3ticos (galactooligossacar\u00eddeos) ou placebo por 8 semanas, mostrou que a suplementa\u00e7\u00e3o com probi\u00f3ticos resultou em diminui\u00e7\u00e3o significativa nos \u00edndices de depress\u00e3o e aumento significativo de triptofano, se comparado aos grupos controle e de prebi\u00f3ticos (6).<\/p>\n<p>Uma pesquisa realizada em 2018, acompanhou os sintomas psiqui\u00e1tricos de 17 pacientes com complica\u00e7\u00f5es intestinais (como a s\u00edndrome do intestino irrit\u00e1vel &#8211; SII) que receberam transplante fecal de pacientes saud\u00e1veis; ap\u00f3s o transplante, verificou-se al\u00edvio de sintomas depressivos e de ansiedade e melhora da qualidade do sono em pacientes com doen\u00e7a gastrointestinal funcional (FGID) (8).<\/p>\n<p>Estima-se que h\u00e1 mais de 1000 esp\u00e9cies de bact\u00e9rias no intestino de um adulto, entretanto essa quantidade e diversidade de esp\u00e9cies podem variar devido a fatores como gen\u00e9tica, idade, estresse, uso de f\u00e1rmacos e nutri\u00e7\u00e3o (4). Os h\u00e1bitos de higiene,&nbsp; a intera\u00e7\u00e3o com o ambiente e at\u00e9 as pessoas que convivemos afetam as esp\u00e9cies de microorganismos que temos? Quem j\u00e1 ouviu a frase que somos a m\u00e9dia das 5 pessoas que mais convivemos? Pois \u00e9, isso pode fazer sentido tamb\u00e9m pelas bact\u00e9rias que compartilhamos.<\/p>\n<p>&nbsp;Pesquisas t\u00eam mostrado que a dieta tamb\u00e9m influencia a microbiota intestinal na fun\u00e7\u00e3o cognitiva (10). Novas abordagens terap\u00eauticas para tratamento da depress\u00e3o e ansiedade precisam ser exploradas e pensadas pelos profissionais de sa\u00fade, os resultados do tratamento (geralmente, realizado via f\u00e1rmacos) permanecem abaixo da expectativa: um em cada dois pacientes que sofre de depress\u00e3o n\u00e3o responde bem ao tratamento e 40% daqueles que respondem t\u00eam reca\u00eddas e muitos pioram apesar do tratamento(7).<\/p>\n<p>Sabemos hoje que essa popula\u00e7\u00e3o de microorganimos desempenham muitos pap\u00e9is importantes em nossa sa\u00fade, inclusive sa\u00fade mental e comportamento.&nbsp; Precisamos entender que o que sentimos impacta nosso intestino e nosso intestino \u00e9 capaz de alterar nosso c\u00e9rebro.&nbsp;<\/p>\n<p>Sempre pensamos que nossas emo\u00e7\u00f5es e a forma como vivemos e interagimos com outras pessoas estavam associadas apenas como uma constru\u00e7\u00e3o ps\u00edquica, religiosa,&nbsp; social e ambiental, sim com certeza esses fatores influenciam! Entretanto, hoje a ci\u00eancia tem nos elucidado que a popula\u00e7\u00e3o de microorganismos que habita em n\u00f3s tamb\u00e9m desempenha um impacto em todas as nossas rela\u00e7\u00f5es e intera\u00e7\u00f5es com outras pessoas.&nbsp;<\/p>\n<p>Assim, hoje ao sentir o friozinho na barriga por algu\u00e9m precisamos pensar que esse nervoso precisar\u00e1 valer muito a pena, n\u00e3o s\u00f3 pela vida que ser\u00e1 compartilhada, mas por mais engra\u00e7ado que soe, pela troca de bact\u00e9rias que teremos. Concorda?<\/p>\n<p><b>Refer\u00eancias:<\/b><\/p>\n<p>1)Biedermann L, Rogler G. The intestinal microbiota: its role in health and disease. Eur J Pediatr. (2015);174(2):151-67<\/p>\n<p>2)Clapp, Megan et al. \u201cGut microbiota&#8217;s effect on mental health: The gut-brain axis.\u201d Clinics and practice vol. 7,4 987. 15 Sep. (2017),.<\/p>\n<p>3) G.B. Rogers, et al. From gut dysbiosis to altered brain function and mental illness: mechanisms and pathways Mol Psychiatry, 21 (2016), pp. 738-748<\/p>\n<p>4) Jiang H, Ling Z, Zhang Y, Mao H, Ma Z, Yin Y, et al. Altered fecal microbiota composition in patients with major depressive disorder. Brain Behav Immun. (2015) ;48:186-94.<\/p>\n<p>5) Johnson, K.V Gut microbiome composition and diversity are related to human personality traits, Human Microbiome Journal, Volume 15, (2020),ISSN 2452-2317,<\/p>\n<p>6)Kazemi A, Noorbala AA, Azam K, Eskandari MH, Djafarian K. Effect of probiotic and prebiotic vs placebo on psychological outcomes in patients with major depressive disorder: A randomized clinical trial. Clin Nutr. 2019 Apr;38(2):522-528. doi: 10.1016\/j.clnu.2018.04.010. Epub 2018 Apr 24. PMID: 29731182.<\/p>\n<p>7) Koopman M, El Aidy S; MIDtrauma consortium. Depressed gut? The microbiota-dietinflammation trialogue in depression. Curr Opin Psychiatry.(2017); 30(5):369-77.<\/p>\n<p>8) Kurokawa et al, The effect of fecal microbiota transplantation on psychiatric symptoms among patients with irritable bowel syndrome, functional diarrhea and functional constipation: An open-label observational study, Journal of Affective Disorders, Volume 235, (2018), Pages 506-512, ISSN 0165-0327.<\/p>\n<p>9) Slyepchenko A, Maes M, Jacka FN, K\u00f6hler CA, Barichello T, McIntyre RS, et al. Gut microbiota, bacterial translocation, and interactions with diet: pathophysiological links between major depressive disorder and non-communicable medical comorbidities. Psychother Psychosom. (2017) ;86(1):31-46<\/p>\n<p>10)&nbsp; Moloney RD, Desbonnet L, Clarke G, Dinan TG, Cryan JF. The microbiome: Stress, health and disease. Mamm Genome. (2014) ;25(1-2):49-74.<\/p>\n<p>11) M. Pirbaglou, et al. Probiotic supplementation can positively affect anxiety and depressive symptoms: a systematic review of randomized controlled trials<\/p>\n<p>Nutr Res, 36 (2016), pp. 889-898<\/p>\n<p>12)Souzedo, F. Bellesia, Bizarro, L e Pereira, A. P. O eixo intestino-c\u00e9rebro e sintomas depressivos: uma revis\u00e3o sistem\u00e1tica dos ensaios cl\u00ednicos randomizados com probi\u00f3ticos. Jornal Brasileiro de Psiquiatria [online]. (2020), v. 69, n. 4 [Acessado 7 Dezembro 2021] , pp. 269-276. Dispon\u00edvel em: &lt;https:\/\/doi.org\/10.1590\/0047-2085000000285.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Quem nunca sentiu um friozinho na barriga no primeiro encontro? Todos n\u00f3s j\u00e1 vivenciamos algum sintoma gastrointestinal frente a um desafio ou nova experi\u00eancia. Mas voc\u00ea sabe por que isso acontece?&nbsp; Nosso c\u00e9rebro \u00e9 ligado ao intestino de v\u00e1rias formas. 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